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Entrevistas
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Dr.ª Madalena Muñoz - "As consultas de nutrição 100% online têm sido uma agradável experiência"


Madalena Muñoz, nutricionista – Licenciada em Ciências dos Alimentos pela Universidade da Califórnia em Davis e em Dietética pela Kansas State University, completou, também nos EUA, um MBA, e uma pós graduação em Dependências (ISPA, Portugal). É membro da American Dietetic Association (ADA), da Associação dos Profissionais de Nutrição e Engenharia Alimentar (APNEA) e da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO). Desenvolve a sua actividade profissional em clínicas da grande Lisboa e através de consultas 100% online, oferece o serviço de aconselhamento nutricional no canal da Mulher Sapo (blogue consultório), realiza clínica privada com crianças, jovens e adultos, focando-se na modificação dos estilos de vida e promovendo a alimentação mediterrânica e vegetariana. Colabora frequentemente com os meios de comunicação, tem o “Ritual” de caminhar e é responsável pelo R´Equilíbrio - Programa de Exercício e Saúde (www.madalenamunoz.com).

Como define equilíbrio alimentar? Depende muito de cada pessoa e das suas características particulares, ou pode ser definido de uma forma geral?

Estudei como se houvesse “uma forma geral” – seguindo as tradicionais pirâmides dos alimentos, adequando as quantidades dos nutrientes (por exemplo, 1g de proteína por quilo de corpo para adultos), tendo em conta a proporção entre os grupos dos alimentos e a variedade dentro de cada. Foi-me ainda ensinado para adequar a dieta à cultura, grau de educação, hábitos e preferências, necessidades fisiológicas, níveis de dispêndio energético, idade, género, etc. Contudo, apesar de diferenciados (e personalizados), na minha opinião estes critérios são ainda, e pegando nas suas palavras, pouco “particulares” para um verdadeiro equilibrio alimentar. É que intimamente relacionado com a dieta está a vitalidade do corpo e mente, a capacidade de auto-cura, os pensamentos e os sentimentos, ou seja, uma forte união da mente, corpo e espírito - união essa que há 3000 anos se honra nas práticas medicinais no oriente e que aos poucos o ocidente reconhece como válida. Quando se observarem estas três dimensões, penso que se atingirá o equilibrio alimentar, aliás, o equilibrio de vida que todos procuramos.

Tem várias especializações na área da Nutrição, entre elas uma em alimentação vegetariana. Considera que a dieta vegetariana é a melhor opção para perder peso?

É engraçado como as pessoas normalmente julgam que tenho uma especialização em “alimentação vegetariana”. Eu diria que isso é como um mecânico de automóveis ter uma especialização em mudar o óleo. Quem estuda as ciências dos alimentos e da nutrição, inevitavelmente sabe como montar uma dieta sem alimentos de origem animal, apesar de tipicamente não ser motivado pelas instituições de ensino a fazê-lo, mas tem todas as capacidades para o fazer e deve fazê-lo quando os pacientes assim o pedem. O nutricionista/dietista deve proporcionar ao paciente escolhas, e não a “chapa 3” de carne grelhada com salada e peixe cozido com legumes, dia sim-dia sim. A escolha vegetariana é uma excelente escolha de saúde, e por isso para perda de peso pode também ser uma excelente forma de o fazer. Uma dieta vegetariana equilibrada pode ser muito saciante, e baixa em calorias.


Para além da sua actividade profissional enquanto Nutricionista, que outros projectos relacionados com alimentação e estilos de vida saudáveis abraça /apoia no seu dia-a-dia?

Abraço o R´Equilíbrio – Programa de Exercício e Saúde que se baseia em caminhadas com um componente de exercícios físicos, ao ar livre. Temos ainda pequenos temas de nutrição e aulas práticas de fisiologia de prevenção. Esta iniciativa nasceu para acompanhar os muitos pacientes que gostam e precisam de caminhar mas não querem ir sozinhos, no caso, para o Passeio Marítimo de Oeiras ou Paredão de Cascais. Junta-se, assim, o útil ao agradável, onde durante a caminhada posso ajudar as pessoas em conversas informais, e onde elas se ajudam e apoiam entre si, visto estarem quase todas “no mesmo barco” de quererem perder peso.

O programa R'Equilíbrio é direccionado ao público em geral ou a um público mais específico?


O R´Equilibrio é para jovens e adultos, homens e mulheres; gostaria de formar grupos específicos de famílias com crianças com obesidade, séniores e grupos de mulheres apenas (especialmente no pós parto), quando houver mais procura.

A alimentação saudável e equilibrada tem um papel fulcral na prevenção de factores de risco, nomeadamente para evitar doenças cardiovasculares. Que outras patologias ou em que outros casos uma alimentação saudável pode ser benéfica?

Visto todos sermos seres biológicos e por isso potencialmente seres que adoecem, há que ter uma alimentação equilibrada (na tal união de dimensões que falava em cima) que previna, trate ou minimize a doença. Há patologias, condições de desequilibrio de saúde e estados psicológicos e/ou fisiológicos que beneficiam duma revisão, mudança subtil ou total à dieta, tais como:
excesso de peso/obesidade, obsessão pelas dietas, diabetes, hipertensão, doenças coronárias ou vasculares, colesterol elevado, triglicéridos elevados, ácido úrico elevado, gastrite / colite, artrite reumatóide, enfartamento, osteoporose, intolerância alimentar, depressão, gravidez, desejo de seguir o vegetarianismo, falta de energia, etc. Se “somos o que comemos”, então há sempre razões para comermos equilibradamente. E sobretudo, nunca é tarde demais para começar.

Tendo em conta a reduzida disponibilidade dos pais e o constante assédio publicitário dos alimentos hiper calóricos a que as crianças estão sujeitas, quais os principais conselhos que destaca para tentar combater de forma eficaz a obesidade infantil?

Dar o exemplo através de refeições em família e programas activos aos fins de semana, em família, e não fazer daí um drama nem pôr a criança a fazer dieta. Mais tarde a criança torna-se um adolescente que comerá muitas porcarias próprias da idade (rebelde), mas depois como jovem adulto eventualmente regressará às raizes, e ao exemplo da sopa e dos legumes e fruta que teve em criança.

Os idosos, devido à escassez de recursos financeiros e à situação de isolamento em que frequentemente vivem, são uma população de risco que está naturalmente mais sujeita a problemas de desnutrição, diabetes, etc... Como Nutricionista, quais os principais cuidados que recomenda para tentar contrariar esta tendência?

A alimentação na pessoa idosa precisa de ajustes a vários níveis, pois a absorção, a digestão, a masticação, e as capacidades de saborear e a sensação de sede sofrem alterações fortes que podem criar desequilíbrios nutricionais e dar azo a patologias, que por sua vez aumentam mais a desnutrição, porque a medicamentação (muitas vezes poli-) para melhorar, por um lado, pode ser mais um factor de risco para uma alimentação empobrecida, por outro. É de extrema necessidade o acompanhamento por nutricionistas/dietistas para com a preparação dos alimentos, o acto de comer, e para com o equilíbrio e adequação da dieta em si, especialmente no idoso mais dependente. É importante a adequação em água, proteína, vitamina B-6, B-12 e ácido fólico, vitamina D, magnésio, cálcio, entre outras necessidades aumentadas, sendo por isso necessário uma dieta de densidade nutricional elevada mas mais baixa em calorias do que na idade de adulto mais jovem, ou seja, um verdadeiro desafio que se tem de conjugar com os desafio de ordem fisiolófica, pois por exemplo pode acontecer o idoso aos 70 anos ter 10% da funcionalidade do olfacto que tinha aos 30 anos de idade, e como sabemos o olfacto é essencial no paladar, e este no prazer da refeição...


No caso de um programa de emagrecimento, para além da dieta saudável e equilibrada e da actividade física, que outros factores considera relevantes para que as pessoas com excesso de peso se mantenham motivadas para alcançar os objectivos pretendidos?

Acertou na resposta na elaboração da pergunta: é preciso a pessoa estar motivada. Cabe ao/s técnico/s de saúde orientar a pessoa para um conjunto de situações (familiares, sociais, logísticas, etc) que precisam de existir para que haja emagrecimento e a sua manutenção, e a vigilância à motivação é crucial. Por exemplo, uma pessoa demasiado desgastada, por excesso de stress e/ou por falta de sono repousante, não terá motivação para ir correr ou nadar nem elaborar refeições caseiras regulares, e quer é comer qualquer coisa rápida e cair no sofá... Há ainda que alinhar as expectativas muitas vezes megalómanas, traçar objectivos com mini metas, lançar desafios realistas e entusiastas, e preparar para planos B. Eu ainda considero crucial o preenchimento mais pessoal da vida, para aumentar de base os níveis de satisfação, que quando estão em baixo levam muitas pessoas a buscá-lo no prazer imediato da comida – um verdadeiro boicote e fonte de frustração para quem quer perder peso. Quem tem níveis de satisfação pessoal mais elevados tolera melhor as adversidades, o stress, o cansaço e outras sensações negativas, conseguindo manter-se no seu rumo com menos deslizes, e assim atingir os objectivos pretendidos mais cedo. Mas acrescento que esses deslizes fazem parte do processo de mudança, são essenciais no processo do auto conhecimento (se a pessoa decidir aprender a lição em vez de transformar isso numa desculpa para desistir); assim há uma maior aceitação e facilidade em colocar estes momentos em perspectiva, e pôr mãos à obra de novo.

Que conselhos dá às pessoas que saíram de um programa de emagrecimento e que sentem dificuldade em manter o seu peso ideal?


Essa é a million dollar question! Numa palavra: estudar (-se)!
Manter o peso é que é o verdadeiro desafio! Manter o peso é estar-se atento, envolvido e comprometido, é no fundo um acto de gestão constante e vitalício! Um bom gestor sabe lidar com mudanças, ser flexível, escolher os desafios, ser realista, e usar o seu bom senso - mas não o faz apenas alguns meses antes do verão! Manter o peso é o passo do controlo de peso mais difícil e aquele que mais falha entre as pessoas que querem emagrecer e fazem dietas, que resultam no nefasto efeito ioiô. É o passo mais necessário de ser estudado. Sim, leu bem: é preciso estudar como vai manter o seu presente ou futuro-novo-peso, tal como indica o perfeito título do livro “RePensar o Peso”. Caso contrário, tudo fica na mesma – ou pior – , e insanidade é implementar a mesma abordagem de sempre e esperar resultados diferentes.

Considera que em Portugal tem havido, nos últimos anos, alguma evolução na forma de encarar a questão da obesidade e da importância de adoptar hábitos de vida saudáveis?

Depende. Do ponto de vista dos pacientes não vejo grandes alterações, pois a grande maioria que me chega já fez imensos estragos com dietas malucas, manipulados, e todo o tipo de esforços mal estudados e de curta duração. Do ponto de vista dos técnicos penso que sim, que há mais conhecimento de como abordar a temática, se bem que o caminho a percorrer ainda é muito longo, pois os próprios técnicos têm mentalidades, e estas demoram a serem mudadas. Por exemplo, ainda há técnicos que pensam que é tudo uma questão de força de vontade, que a pessoa com obesidade é fraca, desleixada ou preguiçosa, e que através dum “policiamento” de dieta e pesagem semanal o assunto se resolve... Tanto é que muitas são as pessoas que me pedem isso mesmo – tal é a sua formatação de anos em dietas, elaboradas pelos profissionais que, ainda, assim trabalham. Mas não é com excesso de controlo rígido externo que o assunto se resolve, ou já estaria resolvido... Muitas pessoas ainda não entenderam isto.

Acompanha o Programa Rituais desde o seu início e já colaborou pontualmente nalgumas iniciativas. Como avalia este Programa e porque é que decidiu agora aceitar o convite para uma colaboração regular?

Considero o Programa Rituais das melhores iniciativas em Portugal de saúde integrada, para o público em geral. Tem conteúdos de excelência, como não podia deixar de ser visto terem sido desenvolvidos em parceria com a Faculdade de Motricidade Humana; estão eficaz e inteligentemente espalhados em vários formatos de comunicação (televisão, revista, livro, portal internet que inclui apresentações de vídeo, newsletter...) e com uma linguagem acessível, uma apresentação fresca, simples e muito bem organizada. Aprecio ainda a integração da psicologia, do exercício físico e da nutrição com o objectivo último de obtenção de saúde e bem estar geral, pois é esse exactamente o meu modo de trabalho, e de vida.
Por tudo isto, quando me convidaram, de certa forma “já tinha aceite”. Foi com muita honra e alegria que aceitei o convite, e espero que esta fusão Rituais-Madalena Muñoz seja do agrado dos leitores, ou melhor, dos “utilizadores”, pois a ideia é que ponham em prática o que vão lendo e ouvindo.

Para além das consultas presenciais, também tem já uma longa experiência em consultas online. Fale-nos um pouco dessa experiência, da receptividade que encontrou, das principais diferenças entre as duas formas de consulta e das razões que a levaram a optar também por este formato inovador.


As “consultas de nutrição 100% online” têm sido uma agradável experiência, quer para mim quer para os utilizadores. Iniciadas em 2008 como uma natural extensão ao apoio que dou, gratuitamente mas muito mais curto, no consultório de nutrição do canal online da Sapo – Mulher. Hoje em dia tudo se faz online e a procura foi algo que surgiu naturalmente, com pedidos de leitores.
Têm as seguintes vantagens em relação às presenciais:
- poupa-se tempo em deslocações, gasolina e papel (para mim e para os pacientes)
- neste momento são mais baratas que as presenciais
- pode ser feito em qualquer lugar do mundo com acesso à Net
- fica com o registo do que foi "falado", guardando o histórico do chat
- adequado para acompanhamento entre consultas presenciais, quem vai temporariamente trabalhar para o estrangeiro, ou mães com menos tempo...

Hoje em dia tenho uma assistente para o processo de marcação etc., mas é na mesma absolutamente confidencial e sou eu quem as dou. A mesma empatia se cria, e se houvesse som no chat, pois por enquanto tem sido só chat escrito, muitos decibéis bem dispostos seriam partilhados.

Descobri que se pode ganhar mais eficiência em meia hora de chat do que numa hora inteira de consulta presencial, por isso a partir deste ano lanço-me o desafio de estruturar as consultas presenciais em meia hora (excepto a 1ª, que dura uma hora).


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